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05/02/2025
O desejo de ser mãe vem da cultura e expectativas sociais, mas tem perdido força, diz psicanalista Vera Iaconelli

Em seu novo livro 'Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas de reprodução', a psicanalista afirma que o atual modelo de maternidade está em colapso e critica o 'maternalismo', discurso ideológico que delega às mulheres a missão impossível de conciliar a função de provedoras da família e de responsáveis pela economia de cuidado


A psicanalista Vera Iaconelli é categórica quando afirma: o atual modelo de maternidade está em colapso. Tema de seu novo livro Manifesto antimaternalista: psicanálise e políticas de reprodução (Ed. Zahar, 253 págs., R$ 49,90), a doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo destaca a impossibilidade de mulheres ocuparem postos de trabalho remunerado - mães solo chefiam 50% das famílias brasileiras -, e ao mesmo tempo serem as responsáveis pela economia de cuidado. A conta simplesmente não fecha. Não por acaso, mulheres têm cada vez menos filhos, o que resulta em um déficit demográfico mundial. Países como o Japão, diz Vera, vendem mais fraldas geriátricas do que fraldas de bebê.

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O maternalismo é um discurso que tenta conciliar o inconciliável, a serviço do capitalismo, explica a psicanalista: “Essa ideologia tem uma categoria social, no caso a mulher, colocada para fazer um trabalho invisibilizado, por baixo de todos os outros trabalhos. Então a exploração do proletariado se sustenta pela exploração do trabalho invisível de cuidado. É imputado a esse grupo uma das coisas mais importantes de uma sociedade, que é a sua permanência a partir de próximas gerações, a reprodução do tecido social. E se tiver que pagar por esse serviço, o modelo quebra".

A ideia do livro veio quando Vera começou a investigar a história da própria família e perceber ali importantes questões de maternidade, e foi reforçada quando ela mesma tornou-se mãe de duas meninas e teve que conciliar isso com a carreira profissional. Ao mesmo tempo, a experiência na clínica, escutando mulheres no divã em situação de sofrimento e adoecimento, a fez ter certeza de que o esgotamento do atual modelo de maternidade precisava ser discutido.