Notícias
05/02/2025
Sobre a palavra do Amor

No texto "O mal-estar na civilização" (1930), Freud nos diz que a linguagem nos oferece um problema no campo do amor, pois chamamos de amor muitas coisas diferentes. No texto, ele está se referindo ao fato de usarmos a mesma palavra, amor, para nos referirmos ao amor sexual, ao amor entre irmãos, ao amor aos animais, ao amor à humanidade etc.
Pensando num contexto cotidiano, parece-me que o problema atual é ainda maior.
Atribui-se palavra amor para muito daquilo que não sabemos o que é. Então, confunde-se amor com neurose, amor com burrice, amor com más escolhas. Nesse lugar, o amor torna-se ([a]mor)tificante, pois passa a ser uma desculpa para aquilo que não podemos explicar ou para aquilo que não sabemos como fazer diferente.
Há quem diga que, por amor, se mantém em relacionamentos que são pura tragédia, há quem mate e diga que é por amor, há quem impeça o outro de viver a própria vida culpando o amor, há quem se demita da vida usando o nome do amor.
Essa confusão acontece porque o amor está ancorado em conteúdos inconscientes. Não sabemos por que amamos uma pessoa, e não outra. Não sabemos exatamente o que, em determinada pessoa, nos desperta para o amor.
A neurose também se estrutura com os fios do inconsciente, também sustenta muitas relações (talvez muito mais do que o próprio amor), também leva o sujeito a sofrimentos.
Talvez haja, sim, um ponto, e talvez seja um grande ponto, em que as neuroses toquem o amor e vice-versa, mas isso não faz com que amor e neurose se tornem a mesma coisa.
Esse negócio de associar amor a tudo, essa demanda generalizada de "mais amor, por favor", parece-me que, longe nos aproximar do amor, acaba por intoxicar a própria palavra amor.
Amor não é coisa que se possa receber porque se pediu. Amor não é promessa política. Amor não é garantia de felicidade e nem justificativa para canalhices ou para a fragilidade do desejo.
As coisa que nos tocam no campo do amor, inclusive, muitas vezes, nem mesmo usam esta palavra
Creditos a Publicação de Ana Suy - Facebook