XV Fórum Internacional de Psicanálise
Dezembro 26, 2008 – 3:40 pmXV FORUM INTERNACIONAL DE PSICANÁLISE
Santiago do Chile, 14 a 18 de Outubro de 2008.
O trabalho de Freud foi revolucionário ao mostrar os laços da Psicanálise com a sociedade e a cultura, demonstrando que ela existe não só para descrever os fenômenos mas também para inaugurar a possibilidade de mudanças, pois sabemos que a Psicanálise não é neutra; ela toma partido do desejo e age na arena social como força promotora de transformações. As Instituições e os psicanalistas se encontram profundamente envolvidos nos processos históricos, sociais, políticos e econômicos dos quais fazem parte, e acreditam que a diversidade dos pontos de vista provenientes de diferentes países representa uma oportunidade para alargar e enriquecer suas práticas.
A Sociedad Chilena de Psicoanálysis (ICHPA) e a Latin American Federation of pychoanalytic psychotherapy and psychoanalysis (FLAPPSIP), são membros da International Federation of Psychoanalytic Societies (IFPS) e esta Sociedade promove a cada 2 anos um Fórum Internacional de Psicanálise. O XIII Fórum realizou-se em Belo Horizonte, MG-Brasil em 2004, o XIV Fórum aconteceu em Roma-Itália em 2006 e o XV ocorreu em Santiago do Chile entre 14 e 18 de Outubro de 2008.
O título do XV International Fórum of Psichoanalysis foi “Identity and Globalization” com um número maior de representantes da América Latina (Argentina, Brasil, Chile, Peru, Uruguai, Venezuela e México), entre outros dos Estados Unidos da América do Norte e Europa ( Alemanha, Espanha, Finlândia, Lituânia, Grécia, Itália, Noruega e Suíça). Na sua abertura foi feito um convite a todos os participantes para reflexão e criação do conhecimento sobre estarmos vivendo numa sociedade cada dia mais globalizada, com impacto visível na subjetividade e na identidade dos indivíduos, e no aparecimento de novas patologias.
Estamos vivendo numa era caracterizada pela fragmentação das redes sociais e pelo descrédito em projetos coletivos e encorajamento de projetos privados. Presenciamos o surgimento de um discurso dominante, totalitário, que aparece sem falha ou fratura, produzindo um sentimento de que qualquer tipo de ação coletiva é fútil, criando uma ilusão neurótica sem significado intrínseco; um discurso que maximiza as potencialidades do sujeito, um discurso vazio, dos padrões de estética, da felicidade, do sucesso. Estamos vivendo num mundo que propõe a coexistência de múltiplas subjetividades realinhadas e pulverizadas pelos do nosso tempo – cada um é seu próprio mestre e culpabilidade e disciplina parecem não ser mais valores.
Se por um lado isso, por outro vemos um contingente de indivíduos que ficam nas bordas dos efeitos civilizatórios da sociedade, e percebemos claramente o aparecimento de sintomatologias resultantes da exclusão e da ausência de fundamentação. Somos testemunhas das múltiplas alternativas buscadas para anestesiar a dor: drogadicção, uso excessivo de tranquilizantes, múltiplas ofertas da ilusão da auto ajuda, excesso de cirurgias plásticas, consumo compulsivo, distúrbios alimentares, entre outros, para satisfazer a subjetividade de cada um.
São realidades novas que vemos no nosso trabalho clínico de cada dia, que desafiam não só a psicanálise mas a todos nós psicólogos/psicoterapeutas, invocando-nos a questionar as diversas teorias e técnicas que utilizamos em nossa prática e a responder de maneira nova e criativa aos desafios apresentados por essas novas realidades. A busca atual é pelo eu ideal e não mais pelo ideal do eu – apreender a realidade com suas contradições é parte do conceito de identidade. Hoje em dia se privilegia o narcisismo, numa construção superegoica precária.
Entretanto, as mudanças na sociedade são mais rápidas que as mudanças na estrutura, e a adaptação do homem a esses campos é muito mais lenta, provocando em nós uma preocupação com a inserção da psicanálise na atualidade. Inúmeras experiências semelhantes à nossa Clínica Social de Psicoterapia mostram que é possível trabalhar em situações não estandartizadas, como o Sistema Único de Saúde, centros de saúde, projetos comunitários, ambulatórios, entre outras. A psicanálise está sempre na contramão de tudo que tem a ver com opressão; a psicanálise transgride a normatização engendrada pela globalização, pois o seu foco é a subjetividade do sujeito – algo do particular. Seu projeto é fazer advir o sujeito e o desejo, fazer advir um saber não sabido ao analisando. “A psicanálise é para qualquer um, mas não é para um qualquer”.
Finalmente, devemos nos lembrar que Psicanálise não é uma profissão, e sim, que se pode formar psicanalistas de várias profissões. A psicanálise é uma posição à qual ascendemos em algum momento da nossa prática. Maria Sônia Martins - Membro diretor e terapeuta da Clínica Social de Psicoterapia.